Sabem, no começo
de 2013 eu tive o PRAZER de ir dois dias seguidos no trote da Letras, da FFLCH
(USP), devido a maravilhosa forma como os veteranos de meu curso me receberam,
assim como os demais bixos dessa faculdade maravilhosa, na qual "respeito" sempre
foi algo presente nos meus dias.
Entendam, não é
como se não tivesse havido trote. Houve.
Uma brincadeira
saudável e divertida que permitira a integração entre calouros e veteranos de
forma descontraída.
Vamos começar:
assim que saí da sala de matrícula, as pessoas PERGUNTARAM se poderiam me
pintar, afinal, me parece plausível que um ser humano possa fazer suas próprias
escolhas.
Certo.
Deixei pintarem, gastaram quase um pote de tinta no meu cabelo absurdamente
comprido, sujaram minha blusa, calça e desenharam uma máscara do Guy Fawkes na
minha cara, e, pasmem, PERGUNTARAM se poderiam pintar meus seios e bunda. Fiquei
absolutamente ENCANTADA com essa ação absurda e espontaneamente civilizada.
Eu lembro que
fiquei uma semana tentando tirar a tinta do cabelo por mais de 40 minutos!
Fizemos algumas
brincadeiras pra lembrar o nome das pessoas – completamente em vão, é claro –, os
veteranos apresentaram seus respectivos cursos para seus respectivos bixos,
tudo incrivelmente organizado, as pessoas que tinham combinado de se encontrar,
se encontraram, e caminhamos rumo à um semáforo para pedir dinheiro, e,
novamente, pasmem, com os veteranos conversando com o bixos, como se fossemos
GENTE.
Pois bem, pedágio,
bar, tudo divertido e civilizado, com uma galera que sabia que “não” significa “não”
e que não te julgava pela forma que você falava ou pelo que você gostava.
CARA, EU TAVA EM
CASA.
Agora, por motivos
que não me cabem dizer aqui, eu mudei de faculdade.
Resolvi que, esse
ano, cursaria Produção Editorial na Anhembi Morumbi, o curso dos meus sonhos, com uma grade que, cara, me deu tesão de estudar.

Bom, me parece
óbvio que depois de um trote TÃO descontraído eu fosse, também, para o trote da
Anhembi. Afinal, é de se esperar que o trote de uma faculdade, particular, onde
a dificuldade para entrar é consideravelmente menor do que uma USP, há cursos
novos e bastante singulares, eu diria, e, supostamente, a maior parte dos
alunos tem mente aberta, tenha um trote tão civilizado e cabeça quanto os que
eu tinha experimentado previamente.
POIS É, DOCE
ILUSÃO.
Qual não foi minha
surpresa quando, assim que eu cheguei na faculdade, JOGARAM um pote de tinta na
minha cabeça, saíram tentando me embebedar, e, quando eu disse que tomava
remédio, jogaram cachaça na minha cabeça e nos meus olhos, me deixando quase
cega por alguns segundos, dos se quais aproveitaram para passar a mão “até em meus
ancestrais”. E olha que eu não sou nenhuma beldade.
Quero fazer um
adendo aqui, dizendo que, somente quem me conhece e sabe o que eu passei aos meus
15 anos sabe como esse tipo de ação me repudia.
Outros grupos de
veteranos vieram – enquanto eu esperava os veteranos no meu curso, que eu tinha
combinado de encontrar – me puxando, dizendo que eu tinha ido no trote porque
quis e agora tinha que aguentar; até que, pasmem pela bilhonésima vez, eu ouvi
a frase “bixete, vai ter que pagar uma breja pra gente, ou eu vou rasgar sua
roupa toda”.
Acho que foi o
cúmulo pra mim.
O meu desconforto
foi físico.
Infindáveis vezes
pior do que a dor da cachaça barata, da 51 e da gororoba verde que já tinham
jogado no meu rosto, à essa altura.
O pior, vocês não
sabem, foi ouvir uma bixete que tava comigo sussurrar que estava COM MEDO.
Isso mesmo,
senhoras e senhores, COM MEDO.
Mas que poderia
julgar?
Eu mesmo só não
estava com medo porque eu estava muito ocupada com ódio.
E, mais ainda, o
que eu poderia fazer pra ajudar?
Porra, eu sou só
uma bixete baixinha e gordinha que, de não sei quantas mil pessoas ali,
conhecia 3 ou quatro indivíduos, que eu nem sabia onde estavam!
Okay, conseguimos
fugir, mais uma vez, pra um lugar um pouco menos cheio, e, porra, eu presencio
um treco ainda pior.

Uma bixete
CHORANDO com 3 caras rasgando a roupa dela e cortando o cabelo. Por sorte,
dessa vez, eu consegui pedir ajuda pra uns veteranos que pareciam “gente
decente” e tavam por ali.
E, pra provar que
eu não sou de todo chata, paguei uma breja, por vontade própria, pra eles,
depois disso.
Ótimo, nesse
momento um veterano que eu conhecia me ligou, e aí eu migrei pra perto dele,
achando que eu estava salva.
De fato, perto do
que já tinha me acontecido, eu estava.
Afinal, uma vez
que é com uma pessoa que a gente conhece, a brincadeira toma uma proporção, um
ar diferente.
Esse veterano
ameaçou raspar minha sobrancelha – na verdade ele tava ameaçando antes mesmo
que eu saísse de casa –, mas, não sei se vocês conseguem ver a diferença de uma
pessoa que você conhece, e sabe que vai respeitar seus limites te zoando, de
uma pessoa que você não conhece, jogou vodka barata na sua cara e ameaçou a
cortar sua roupa.
Bom, a partir de
então eu honestamente não tenho do que reclamar.
É claro que
jogaram muito mais tinta em mim, bebidas das quais eu nunca tinha ouvido falar
no meu cabelo, tinta de alumínio verde na minha perna – que, por acaso, não
saiu até agora, o que me faz parecer a She Hulk –, pó de café, farinha, ovo,
MOCOTÓ, óleo de cozinha, vinagre e mais uma porção de coisas, me fizeram andar
de elefantinho e cantar uma música estúpida, mas, o ponto é: quando minha
pressão baixou, meus veteranos pararam comigo e não xingaram, compraram água
comigo e perguntaram se eu estava bem, não me forçaram a pedir dinheiro
enquanto minha pressão não voltasse ao normal, e não me bateram com uma garrafa
de whisky só porque eu não podia beber, por causa da minha medicação.
Eu me diverti, corri atrás de carro, pedi dinheiro, e paguei mais uma breja pra um pessoal,
mesmo depois de toda merda que eu tinha passado naquele dia, uma vez que meus
veteranos fizeram eu me sentir acolhida, parte de alguma coisa, e segura.
Afinal, não é pra
isso que o trote deveria servir?
Não sei se tudo o
que eu disse aqui fez muito sentido, mas eu definitivamente precisava
desabafar, e pedir, encarecidamente:
Mais amor, por favor.
 |
| Clique na imagem para ampliá-la |
Gostaria também de
agradecer meus veteranos da Letras, por todo amor que só a FFLCH sabe dar;
acreditem, agora eu dou muito mais valor em vocês.
E gostaria, de
agradecer, acima de tudo, aos veteranos que me salvaram no trote da Anhembi.
Hégon, Carol,
Thaís, e a outra amiga da P.E. que eu nunca soube o nome; vocês foram
incríveis, obrigada.
Editado:
Muitas pessoas vieram me falar sobre proibir os trotes, não é isso que eu tenho em mente, gente, longe de mim.
Um trote bem aplicado é uma experiência memorável, e não acho que as pessoas, os calouros, deveriam ser privados de tal integração, mas é fato que às vezes, infelizmente a maior parte das vezes, as coisas saem do controle e os veteranos perdem a noção do que é saudável e do que é abuso de poder.
A questão não é proibir nem nada do tipo.
MUITO pelo contrário.
É a liberdade.
A liberdade de dar trote em um calouro que acabou de entrar na faculdade, é claro, mas, mais importante, a liberdade E DIREITO do calouro que está recebendo o trote de dizer: "chega", "não quero" ou "esse é o meu limite".
O problema é que a liberdade só é bem usufruída quando agregada ao conhecimento, sabedoria e afins; o que não é o caso da nossa nação.
.