sábado, 15 de fevereiro de 2014

Escrevo




Escrevo na esperança de que leia, a alma enegrecida, corrompida pelo dinheiro. Escrevo na esperança que as palavras arranquem o rancor que corrói meu peito e tira-me o sono.
Escrevo, agarrando-me ao resquício de sanidade que se esvai lentamente, a cada palavra sobre o futuro dita pelos lábios burgueses que se afirmam tão bem sucedidos.
Escrevo, na tentativa de provar a mim mesma que eu sou tudo aquilo que eu preciso ser, na tentativa vã de desvincular-me da imagem cálida que esperam que eu tome, enquanto a tórrida pessoa dentro de mim implode no oceano de expectativas que jamais corresponderei. A torrente de sentimentos e ideais me atinge, arrastando-me do pântano de desesperanças a que estou presa e joga-me no leito das ilusões. A verdade é que não me movi. Tudo não passa de uma farsa. De uma falsa esperança.
De que adianta?
Trago da paciência um longo filete, roubando-lhe tudo que me é possível pegar.
Preciso me agarrar e algo.
Onde está meu lápis?
Escrevo.
Escrevo na esperança de fugir de um mundo vil, que me enoja e me julga; que me pisa, mastiga e cospe.
 O catarro da sociedade pede a catarse, mas não passa de uma catástrofe.
Céus, daria meu lápis por um norte, por uma crença que me guie, mas a desilusão tirou-me a fé.
Resta-me escrever.
Então escrevo.
Escrevo na esperança que minhas palavras vagas façam a alguém o bem que fazem a mim.
Até lá, escrevo.
Escrevo porque a caneta é a única em quem acredito.
Escrevo, porque o papel é quem guarda meus segredos.
Escrevo, porque o lápis ensinou-me a extravasar aquilo que meus lábios e olhos não puderam.
Escrevo, porque é tudo que me resta.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Relatos de uma veterana em trotes.



Sabem, no começo de 2013 eu tive o PRAZER de ir dois dias seguidos no trote da Letras, da FFLCH (USP), devido a maravilhosa forma como os veteranos de meu curso me receberam, assim como os demais bixos dessa faculdade maravilhosa, na qual "respeito" sempre foi algo presente nos meus dias.
Entendam, não é como se não tivesse havido trote. Houve.
Uma brincadeira saudável e divertida que permitira a integração entre calouros e veteranos de forma descontraída.
Vamos começar: assim que saí da sala de matrícula, as pessoas PERGUNTARAM se poderiam me pintar, afinal, me parece plausível que um ser humano possa fazer suas próprias escolhas.
Certo.
Deixei pintarem, gastaram quase um pote de tinta no meu cabelo absurdamente comprido, sujaram minha blusa, calça e desenharam uma máscara do Guy Fawkes na minha cara, e, pasmem, PERGUNTARAM se poderiam pintar meus seios e bunda. Fiquei absolutamente ENCANTADA com essa ação absurda e espontaneamente civilizada.
Eu lembro que fiquei uma semana tentando tirar a tinta do cabelo por mais de 40 minutos!
Fizemos algumas brincadeiras pra lembrar o nome das pessoas – completamente em vão, é claro –, os veteranos apresentaram seus respectivos cursos para seus respectivos bixos, tudo incrivelmente organizado, as pessoas que tinham combinado de se encontrar, se encontraram, e caminhamos rumo à um semáforo para pedir dinheiro, e, novamente, pasmem, com os veteranos conversando com o bixos, como se fossemos GENTE.
Pois bem, pedágio, bar, tudo divertido e civilizado, com uma galera que sabia que “não” significa “não” e que não te julgava pela forma que você falava ou pelo que você gostava.
CARA, EU TAVA EM CASA.
Agora, por motivos que não me cabem dizer aqui, eu mudei de faculdade.
Resolvi que, esse ano, cursaria Produção Editorial na Anhembi Morumbi, o curso dos meus sonhos, com uma grade que, cara, me deu tesão de estudar.
Bom, me parece óbvio que depois de um trote TÃO descontraído eu fosse, também, para o trote da Anhembi. Afinal, é de se esperar que o trote de uma faculdade, particular, onde a dificuldade para entrar é consideravelmente menor do que uma USP, há cursos novos e bastante singulares, eu diria, e, supostamente, a maior parte dos alunos tem mente aberta, tenha um trote tão civilizado e cabeça quanto os que eu tinha experimentado previamente.
POIS É, DOCE ILUSÃO.
Qual não foi minha surpresa quando, assim que eu cheguei na faculdade, JOGARAM um pote de tinta na minha cabeça, saíram tentando me embebedar, e, quando eu disse que tomava remédio, jogaram cachaça na minha cabeça e nos meus olhos, me deixando quase cega por alguns segundos, dos se quais aproveitaram para passar a mão “até em meus ancestrais”. E olha que eu não sou nenhuma beldade.
Quero fazer um adendo aqui, dizendo que, somente quem me conhece e sabe o que eu passei aos meus 15 anos sabe como esse tipo de ação me repudia.
Outros grupos de veteranos vieram – enquanto eu esperava os veteranos no meu curso, que eu tinha combinado de encontrar – me puxando, dizendo que eu tinha ido no trote porque quis e agora tinha que aguentar; até que, pasmem pela bilhonésima vez, eu ouvi a frase “bixete, vai ter que pagar uma breja pra gente, ou eu vou rasgar sua roupa toda”.
Acho que foi o cúmulo pra mim.
O meu desconforto foi físico.
Infindáveis vezes pior do que a dor da cachaça barata, da 51 e da gororoba verde que já tinham jogado no meu rosto, à essa altura.
O pior, vocês não sabem, foi ouvir uma bixete que tava comigo sussurrar que estava COM MEDO.
Isso mesmo, senhoras e senhores, COM MEDO.
Mas que poderia julgar?
Eu mesmo só não estava com medo porque eu estava muito ocupada com ódio.
E, mais ainda, o que eu poderia fazer pra ajudar?
Porra, eu sou só uma bixete baixinha e gordinha que, de não sei quantas mil pessoas ali, conhecia 3 ou quatro indivíduos, que eu nem sabia onde estavam!
Okay, conseguimos fugir, mais uma vez, pra um lugar um pouco menos cheio, e, porra, eu presencio um treco ainda pior.
Uma bixete CHORANDO com 3 caras rasgando a roupa dela e cortando o cabelo. Por sorte, dessa vez, eu consegui pedir ajuda pra uns veteranos que pareciam “gente decente” e tavam por ali.
E, pra provar que eu não sou de todo chata, paguei uma breja, por vontade própria, pra eles, depois disso.
Ótimo, nesse momento um veterano que eu conhecia me ligou, e aí eu migrei pra perto dele, achando que eu estava salva.
De fato, perto do que já tinha me acontecido, eu estava.
Afinal, uma vez que é com uma pessoa que a gente conhece, a brincadeira toma uma proporção, um ar diferente.
Esse veterano ameaçou raspar minha sobrancelha – na verdade ele tava ameaçando antes mesmo que eu saísse de casa –, mas, não sei se vocês conseguem ver a diferença de uma pessoa que você conhece, e sabe que vai respeitar seus limites te zoando, de uma pessoa que você não conhece, jogou vodka barata na sua cara e ameaçou a cortar sua roupa.
Bom, a partir de então eu honestamente não tenho do que reclamar.
É claro que jogaram muito mais tinta em mim, bebidas das quais eu nunca tinha ouvido falar no meu cabelo, tinta de alumínio verde na minha perna – que, por acaso, não saiu até agora, o que me faz parecer a She Hulk –, pó de café, farinha, ovo, MOCOTÓ, óleo de cozinha, vinagre e mais uma porção de coisas, me fizeram andar de elefantinho e cantar uma música estúpida, mas, o ponto é: quando minha pressão baixou, meus veteranos pararam comigo e não xingaram, compraram água comigo e perguntaram se eu estava bem, não me forçaram a pedir dinheiro enquanto minha pressão não voltasse ao normal, e não me bateram com uma garrafa de whisky só porque eu não podia beber, por causa da minha medicação.
Eu me diverti, corri atrás de carro, pedi dinheiro, e paguei mais uma breja pra um pessoal, mesmo depois de toda merda que eu tinha passado naquele dia, uma vez que meus veteranos fizeram eu me sentir acolhida, parte de alguma coisa, e segura.
Afinal, não é pra isso que o trote deveria servir?
Não sei se tudo o que eu disse aqui fez muito sentido, mas eu definitivamente precisava desabafar, e pedir, encarecidamente:
Mais amor, por favor.
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Gostaria também de agradecer meus veteranos da Letras, por todo amor que só a FFLCH sabe dar; acreditem, agora eu dou muito mais valor em vocês.
E gostaria, de agradecer, acima de tudo, aos veteranos que me salvaram no trote da Anhembi.
Hégon, Carol, Thaís, e a outra amiga da P.E. que eu nunca soube o nome; vocês foram incríveis, obrigada.








Editado:
Muitas pessoas vieram me falar sobre proibir os trotes, não é isso que eu tenho em mente, gente, longe de mim.
Um trote bem aplicado é uma experiência memorável, e não acho que as pessoas, os calouros, deveriam ser privados de tal integração, mas é fato que às vezes, infelizmente a maior parte das vezes, as coisas saem do controle e os veteranos perdem a noção do que é saudável e do que é abuso de poder.
A questão não é proibir nem nada do tipo.
MUITO pelo contrário.
É a liberdade.
A liberdade de dar trote em um calouro que acabou de entrar na faculdade, é claro, mas, mais importante, a liberdade E DIREITO do calouro que está recebendo o trote de dizer: "chega", "não quero" ou "esse é o meu limite".
O problema é que a liberdade só é bem usufruída quando agregada ao conhecimento, sabedoria e afins; o que não é o caso da nossa nação.
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