Às vezes eu quero escrever pra que ninguém leia, e eu decidi que aqui é o melhor lugar pra isso.
Provavelmente não tem ninguém lendo isso, e tudo bem.
Tudo bem mesmo.
Eu prefiro assim, por hora.
Sei que soa estranho que uma escritora não queira ser lida às vezes, mas eu sempre fui toda esquisitices.
Se realmente tiver alguém lendo, não entenda mal, não estou dizendo que não quero que meus livros sejam lidos, é só que às vezes eu quero escrever única, e exclusivamente, para tirar a sensação ruim que insiste em me puxar para baixo, para dentro desse poço de lama sem fundo que me acompanha desde muito tempo; para me livrar do parasita que parece deliciar-se ao alimentar-se das memórias felizes que eu tão arduamente tento cultivar.
Talvez por isso os dementadores da J.K. tenham me parecido tão assustadores.
A personificação do próprio medo, alimentando-se da felicidade.
Melhor analogia à depressão não há.
Mas a questão toda é o desejo de escrever, pra ninguém em especial.
Sem revisões, sem preocupações, e não na linha do transcendental e maravilhoso que faz-nos levitar e andar pelo céu.
Sem a magia de escrever uma história em que as coisas se encaixam e faça seu inconsciente trabalhar arduamente e te faça parecer um gênio.
Sem corretor do word.
Sem julgamento ou receio de ser repreendido.
É só um desabafo.
Sem pagar penitência.
É só um desabafo.
Sem me preocupar com layout do blog.
Só um desabafo.
Já até me sinto mais leve, se me permite dizer, apesar de toda a música de fossa tocando ao fundo, mas essa sempre foi a graça.
Jogar a vida no modo hard, né?
Preciso admitir, que me cansei um pouco disso, e que daria tudo para simplesmente vivê-la.
Para ter coragem de enfrentá-la.
Ou de ao menos afastar a grande nuvem de matéria nenhuma que me joga para baixo mais e mais, que faz com que eu ande cada vez mais encurvada e tenha uma constante vontade de gritar e vomitar.
Sabe, não são coisas que eu consiga dizer a ninguém.
Nem à minha psicóloga, o que é estranho por si só.
Quer dizer, depois de contar sobre anos de depressão, seja por divórcio, mudanças constantes, bullying, perdas, estupro, e o medo crescente de falhar, pela inconstância e incapacidade de terminar qualquer coisa... depois de contar sobre coisas tão mais pesadas, por que me parece tão errado falar sobre isso?
Eu ouvi uma vez ou outra, que às vezes temos que regredir para avançar, e isso até me pareceu inteligente, muito inteligente, na verdade, mas, por que, então, parece tão vergonhoso regredir?
Por que não tenho coragem de admitir que eu não consigo mais lutar contra isso sozinha?
Por que só dizer seu nome parece tão assustador agora?
Quer dizer, eu o disse ali em cima.
Por que não consigo escrevê-lo outra vez?
Por que as lágrimas estão caindo no teclado?
Eu não quero que elas o danifiquem.
Por que eu não consigo falar o que vim falar?
Por que eu nem ao menos consigo chegar no assunto que queria abordar?
Porque não paro de tangenciar o assunto?
Por que não consigo terminar nada?
É tão assustador.
Por que não escrevi isso em outro lugar?
Por que não fiz isso em um vídeo para o youtube?
Afinal, eu tenho um canal que nem ao menos uso, e, ainda assim, ele tem seguidores!
Por que, apesar de tudo isso, eu simplesmente não consigo sentir que exista alguém ao meu lado?
Por muito tempo meu sorriso foi forçado, e eu deveria estar acostumada a fazê-lo à essa altura, então por que ele simplesmente não sai?
Por que minha boca insiste em tremer numa deformidade opaca e completamente distorcida?
Por que cada vez mais eu me sinto o brinquedo com defeito que sempre soube ser?
Por que agora?
Depois de tanto tempo enfrentando demônios sozinha.
Por que agora?
Eu estava acostumada.
Juro que estava.
A ser a ovelha negra, a ouvir que "ela era uma boa filha", ser a estranha, a esquisita, a sozinha, atender o telefone e ouvir falarem mal de você na extensão... Eu estou acostumada a decepcionar as pessoas.
Eu não criava expectativas e impedi que o fizessem por mim; eu afastei todo mundo e impedi que acreditassem em mim.
Eu vivi o pior inferno que eu poderia imaginar e a chantagem que veio depois disso e eu fiz do pesadelo um trabalho frutífero e promissor.
Eu fiz do pesadelo sonho, sozinha.
Então por que agora tudo parece tão mais difícil?
Eu não consigo respirar, e não o digo como figura de linguagem.
Eu simplesmente não consigo.
Mas o choro está cessando, e eu estou sorrindo da minha tolice, a medida do possível.
A dor, a angustia e o desespero estão aqui, junto co o medo e a sensação do fracasso.
Não sei se um dia elas irão embora, mas eu vou aguentar.
De algum jeito, eu vou.
Sozinha, em silêncio, torcendo para que os livros me salvem uma vez mais.
O assunto que eu queria abordar, o mangá que quase parece uma biografia não autorizada, fica pra uma próxima, talvez.
E obrigada, querido amigo imaginário, por ter me escutado.
Sinto que nadei alguns centímetros rumo à superfície.
Talvez eu saia do lamaçal.